mãos geladas

ele que me sorve, mas é de cada vez mais pouquinho

de pegar o nada, pular do escuro

não só significa as coisas individuais, como é o próprio ato de pensá-la

de um tudo que não passa de conceito,

ou rela a nova realidade; se é sempre ela, sem tempo

 

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

dos últimos 20 anos

o coração tinha amanhecido transbordando. era como se cada gota de certa angustia fosse caindo sobre um pires com uma casinha de madeira, um quintal bonito, algumas árvores abstratas pintadas com uma tinta azul céu do interior. isso era porque, enquanto estava em erupção, perdendo o chão, com tudo tremendo por dentro, estava em paz. e realmente viva. dentro dos seus conceitos de estar viva naquele momento. o de se jogar. passava  horas a pensar em tudo que era nada, a tanto de dispersar de ações que isto não devia. e por que não? não quis falar sobre. alguns mais próximos perguntavam sobre a angustia e observavam o prazer da sensação. não sabia o que pensavam. e, nesse caso, nem se importava em saber. tratava-se das sensações que pensava ter que trabalhar sozinha. cres-cen-do. um auto-aprendizado. espelho sincero. e passava a diluir o que devia ser homeopático em si. até virar uma pintinha esquecida no dedinho do pé. costas. nuca. e o tempo sabido tratava de desenrolar os nós. os ventos voavam fortes por ali. o vento que era tempo. o tempo que era vento. devia ser alguma coisa com a lua cheia.  ou algum cruzamento de sopros de todos os lados, todas as direções, com as mesmas intenções. ser vento deve ser uma das atividades mais livremente sincronizadas de se fazer. se dois corpos não ocupam o mesmo espaço, um vento que vai para uma direção tem que ir de forma a andar sincronizado com os outros que vão para direções distintas. e tudo que é nada – que é quase tudo, é vento. o vento que é tempo. o tempo que é vento.

– nunca pensei em ser vento.

-já pensei várias vezes… seria muito satisfeita.

depois se arrependeu de ter dito “satisfeita”. apesar do “muito”, parecia tão morno que não era sincero com seu fogaréu e a felicidade que sentiria se fosse vento. se o fosse, conheceria a liberdade infinita.

-fuuu…

ele assoprou. os pêlos arrepiaram com um chilique nos ombros. sorriu por ser muito bom sentir muito.

 

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

esse papo meu já tá qualquer coisa

Berro pelo aterro

Pelo desterro

 Berro por seu berro

Pelo seu erro

Quero que você ganhe

Que você me apanhe.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

do céu.

O emaranhado de marcas do tempo espalhados pelo corpo gritam o cansaço expressivo de uma vida difícil. tudo deveria ser assim, cru. as reações naturais são densas e se contradizem com alguma leveza que flui de movimentos pequenos.  os olhos cansados sorriem timidamente. a pele está em erosão. e como os solos que sofrem com a ausência de chuva, o coração está seco. não sabe mais chorar.

Os cabelos continuam longos e escuros, mais uma parte de sua jovialidade que resistiu ao tempo. tempo este que não gaguejou em passar e fazer de suas palavras, de dicção difícil, desafios desejosos de uma mente tranquila de seu papel. eram 82 anos fortemente vividos. sentidos. uma vontade de vida que ultrapassa a felicidade. uma vontade de vida que escala as tristezas. sentia. sente, faz questão, é assim que move a vida. um beijo, uma memória, um abraço, uma saudade, um sorriso e uma dor de um grande amor.

“Ai, ai”. ela para e suspira. “como esta dor dói”. os olhos escuros e secos se fixam em uma parede qualquer. naquele instante, tudo tem cheiro de lembrança; e daquelas boas, de laranja com canela. é amor. aos olhos externos, esta história só pode ser um desses romances que comovem até os corações mais durões; para ela, só amor. “acho que eu amo ele e sou apaixonada por ele, por isso nunca quis esquecer”. desnecessário dizer. só o seu olhar já entregava, exalando a mescla perfeita de amor e paixão que lhe compunham. paixão agressiva, amor delicado. paixão vendaval, amor brisa. paixão loucura, amor cura.

Os filósofos gregos entendiam aquilo como um princípio que governa a união dos elementos naturais e como princípio de relação entre os seres humanos. para ela, só amor. todas as manhãs, quando abre os olhos, respira consciente seu sentimento. combustível. possante. rijo ao ponto de resistir anos de solidão. não que não sentia medo – e como saberíamos? -, mas “tudo que acontece na vida da gente é pra aprender alguma coisa, né?”.  e foi sua maior lição; há 35 anos, o grande amor de Juvelina partiu.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

não se iluda.

vontades já são suficientes para justificar atitudes.
se me joguei para fora de mim mesmo, junto com você, foi simplesmente porque quis.

foi aquele certo ar de não se apaixonar que pendurou no seu pescoço.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

mu-ah

naqueles dias em que acordo sem saber quem sou,

ouço todos os cds que tenho com o shuffle acionado.

as músicas me sabem. me-lembrei-me. me.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

eu.

Regra é da vida que podemos, e devemos, aprender com toda a gente. Há coisas da seriedade da vida que podemos aprender com charlatães e bandidos, há filosofias que nos ministram os estúpidos, há lições de firmeza e de lei que nos vêm no acaso e nos que são do acaso. Tudo está em tudo.

Em certos momentos muito claroes da meditação, como aqueles em que, pelo princípio da tarde, vagueio observante pelas ruas, cada pessoa me traz uma notícia, cada casa me dá uma novidade, cada cartaz tem um aviso para mim.

Meu passeio calado é uma conversa contínua, e todos nós, homens, casas, pedras, cartazes, e céu, somos uma grande multidão amiga, acotovelando-se de palavras na grande procissão do Destino.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego)

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário